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Fátima Pacheco fala sobre a importância da Formação Continuada.

            Um novo país sempre traz novos desafios, novas culturas e com isso um autoconhecimento que, somado à alegria brasileira e às pessoas tão amistosas, fez com que a portuguesa Maria de Fátima Duarte dos Santos de Almeida Pacheco, mais conhecida como Fátima Pacheco, fosse convencida por seu marido a se mudar para o Brasil onde reside atualmente em Campinas – SP, mas mesmo assim, não abre mão de sua residência física em seu país natal.

            O currículo dessa professora luso-brasileira é rico e encantador. Formada em contabilidade, decidiu também por fazer licenciatura em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto em Portugal e especializou-se em curso ligado a um Programa de Gestão Escolar de Qualidade, na Fundação L´Hermitage.

             Nossa equipe entrevistou a assessora de educação que presta serviços há muitos anos no Colégio Interativa e conta de onde surgiu essa parceria duradoura, o que a fez querer ser também uma educadora e o que espera do ensino para o futuro do Brasil. Confira a reportagem na íntegra.

 

  1. Colégio Interativa: Você é portuguesa. O que a fez mudar de Portugal para o Brasil?

Fátima: Uma longa história. Começou quando conheci o Prof. Rubem Alves, sua companheira Thaís e todos os seus amigos do grupo dos Canoeiros. O Brasil era tão grande, as pessoas tão amistosas, a leveza das relações, a alegria do clima, a necessidade de viver outras experiências. Meu marido convenceu-me a fazer “esta viagem” e aqui estou! Novos desafios, outras vidas, outras culturas. Encontrei-me.

 

  1. Colégio Interativa: Que experiências do passado a levaram a se dedicar pela educação? Como despertou em você a vocação educadora?

Fátima: É difícil dar uma resposta que seja mais real que imaginária. Cada pessoa vai tendo as suas experiências de vida, que se vão sedimentando, mas para as quais, raramente, temos consciência.

Quando me perguntava o que gostaria de ser quando fosse grande eu reportava-me à imagem que tinha da minha professora do 1º ano de escolaridade. Ela era da minha família, eu gostava de brincar na casa dela com sua filha, minha prima, que também estudava na mesma turma.

Fui uma criança tímida, que nunca gostava de se sobressair, ou talvez até quisesse, pois não era a menina mais popular da sala. Quando escrevo sobre esses tempos não me reconheço na pessoa que sou hoje. Sinto-me estranha.

Durante muito tempo considerava que a Escola tinha sido “madrasta” comigo. Agora descubro que sou o que sou por tudo o que vivi e sou o resultado de todas as pessoas que por minha vida passaram. Isso me faz reconhecer que, afinal, aquela Escola não foi tão “madrasta” como pensava.

A vocação, talvez tenha vindo da convivência constante com professores, com crianças… Será que nós descobrimos vocações ou são elas que nos descobrem a nós?!

  1. Colégio Interativa: Há diferença entre a educação portuguesa e a brasileira?

Fátima: Em educação as diferenças não são muitas, pois, Escola é Escola em todo o lugar. Todas têm edifícios, diretores, professores, assistentes, alunos, pais, etc.

A maior diferença entre a educação portuguesa e brasileira é a rigidez de uma cultura europeia. É impensável em Portugal um aluno chamar os (as) professores (as) de “tios/tias” ou chamar pelos seus nomes próprios sem que seja antecedida a palavra “professor (a)”. E se pensar em outros países, é ainda mais distante a relação entre professor e aluno, uma vez que são tratados pelos nomes de família.

Os alunos são crianças, que são iguais em qualquer lugar do mundo, ressalvando o fato de o Brasil ser muito mais povoado, por que de tamanho continental, o que leva à sobrelotação das escolas. Nada que Portugal não tenha vivido aquando do alargamento da escolaridade obrigatória. Passamos a ter crianças na escola que ninguém (professores, ou pais) estava habituado a conviver, da qual não conheciam, e talvez ainda não conheçam as histórias de vida, as identidades, o que torna o relacionamento institucional difícil.

As metodologias são as características da Escola-Modelo de fábrica, salvo raras exceções que acontecem mais por filosofia de vida dos profissionais, como o caso da Escola da Ponte, o Movimento da Escola Moderna e, muitos outros professores que, solitariamente, vão fazendo a diferença na vida dos seus alunos, dentro da autonomia relativa que possuem face ao poder central.

  1. Colégio Interativa: Há quanto tempo você tem uma parceria com o Colégio Interativa? Como isso começou e por quê?

Fátima: Não nos conhecíamos. Sei que a Jane Orsi tinha feito uma visita à Escola da Ponte quando o Colégio utilizava o sistema Pueri Domus. Depois aconteceram vários momentos de “namoro” com o José Pacheco e depois a parceria com o Colégio Interativa começou por um convite para fazer parte da uma semana pedagógica, creio que no ano de 2009. A partir de 2010 mantivemos uma parceria mais estável, com mais desafios e conquistas.

  1. Colégio Interativa: O que é exatamente FORMAÇÃO CONTINUADA e como nasceu essa proposta? É de sua autoria?

Fátima: Na minha perspectiva formação continuada é algo que só acontece quando estudamos tendo em consideração as dificuldades que encontramos nas práticas. Esse foi o que nos motivou a parceria, pois estávamos em perfeita harmonia.

A proposta nunca é de uma pessoa, pois para que a formação continuada, de fato, aconteça, ou seja, dê frutos com mudanças visíveis, torna-se necessário que ela surja de um coletivo. Ora, eu tive a sorte de fazer parte desse coletivo de pessoas que queriam fazer mudança, “sair da caixinha”. Eu trazia outros modos de olhar, só isso, o resto foi por conta dos maravilhosos profissionais que se têm envolvido e implicado nessa formação.

Não posso ignorar que essa é uma perspectiva de formação que estudei durante quatro anos com o Pacheco e que foi a sua tese de mestrado: a formação em círculo de estudos, que a Suécia já fazia em outros âmbitos profissionais.

  1. Colégio Interativa: Como você aplica a Formação Continuada no Colégio Interativa e de que forma o corpo docente se envolve com isso?

Fátima: Eu não aplico formação continuada, eu proponho-me estudar junto em função das inquietações que vão surgindo com a prática, com as visitas que fazemos às escolas de referência, como foi a viagem à Argentina no Jardín Fabulinus, e as formações que fizemos com outros profissionais internacionais e nacionais (Simonetta Cittadini, Alejandra Dubovik, Edith Derdyk e Madalena Freire) que nos desiquilibraram quer cognitivamente quer emocionalmente. E desse desiquilíbrio emerge a vontade de conhecer, experienciar, estudar e, nunca estarmos satisfeitas com o que fazemos e queremos sempre mais e mais.

O envolvimento do corpo docente creio que vem da coesão e da cumplicidade do grupo e, sermos todos bastante maduros para permitir-nos criticar, avaliar e retomar em grupo, sem haver melindres pessoais. Temos capacidade de apontar as nossas falhas e ficar felizes com as pequenas vitórias que queremos que se constituem em grandes vitórias, mais grupais que individuais.

  1. Colégio Interativa: Qual a importância desse tipo de trabalho para a escola?

Fátima: Isso só a escola poderá dizer (risos…). Penso que só poderemos mudar alguém quando nós próprios mudamos. Toda a mudança social e, concomitantemente, escolar passa pelo coração, pelo sentir. Sem isso a transformação não acontece. Quando muito poderá ser maquiada porque feita por instrução e não por compreensão ou acreditar. As mudanças não são somente funcionais elas passam todas por alterações internas das nossas convicções.

  1. Colégio Interativa: De que forma podemos usar esse conteúdo para estabelecer uma maior participação dos pais com a escola?

Fátima: Do mesmo modo, acredito. Chamando-os a participar na vida de seus filhos, a formarem com o Colégio uma parceria, pois nenhuma criança constrói a sua identidade quando vive momentos de esquizofrenia, ou seja, quando a filosofia de vida familiar é dissonante da escolar. É bom que a família e a própria escola não se reconheçam como um depósito de alunos, mas um lugar, um porto seguro onde as crianças se vão construir enquanto pessoas e alunos.

Devemos reconhecer que as famílias, hoje, não têm um papel fácil. Não podemos pensar naquela família igual à que vivemos na minha infância. Hoje tudo é mais interessante fora dos muros de casa, da escola. Tão importante que esse mundo entra sem que demos por isso. Teremos de estar bem atentos.

Poderei referir que os anseios das famílias são muito maiores que dos nossos pais. Estes só queriam que os filhos fossem para a escola para ser alguém na vida. Hoje, a escola, e nós próprios, não valorizamos os saberes académicos uma vez que a informação é tão acessível, que por vezes se transforma em ruído. Já não é tão importante ter um curso superior porque há escassez de empregos no mercado de trabalho, ou talvez porque há mais pessoas com acesso à universidade e ela própria, também, não se soube adequar a essa realidade.

  1. Colégio Interativa: Quais os segmentos que recebem a Formação Continuada e por quê?

Fátima: A formação continuada começou com maior profundidade na Educação Infantil e é vontade que ela possa se disseminar ao Ensino Fundamental, de modo cauteloso e dando passos pequenos, mas que possam ser sólidos.

  1. Colégio Interativa: De que forma podemos trabalhar em equipe sem perder a individualidade e criatividade de cada profissional e aluno?

Fátima: Trabalhar em equipe não restringe a individualidade de ninguém. A importância da equipe é cada um com seus saberes, suas idiossincrasias, possa ser a parte indispensável da “roda dentada”, da sua engrenagem, já que temos de olhar para a escola como um sistema que pode adoecer se não se souber cuidar.

Ouvir a todos, confrontar diferentes perspectivas, diferentes visões sobre um mesmo fenômeno. Aí só pode entrar a criatividade de cada profissional e aluno, porque é importante que o professor se saiba, também, um aluno.

  1. Colégio Interativa: O Colégio Interativa trabalha com uma proposta digital inserida em sua metodologia. Qual a sua opinião sobre essa nova forma de ensino?

Fátima: A proposta digital veio desacomodar o que estava cristalizado. Todos nós executamos ações automaticamente. A proposta digital veio questionar o modo de fazer e mostrar que as crianças e adolescentes são muito mais competentes, a nível digital, que qualquer adulto. Isso, acredito, tirou todo o mundo da zona de conforto, pois teria de lidar com outra realidade. Forçou ao estudo, a sair do lugar magistral para pedir ajuda aos alunos. Importa, no entanto, referir que o digital é só mais uma ferramenta para que a aprendizagem aconteça e que o professor se tornou, mais do que nunca, muito mais imprescindível. Ele tem um papel fundamental na gestão da informação que a era digital nos dá, já que a ele caberá ajudar os alunos a compreenderem o mundo através da decodificação da informação, da sua classificação, das suas armadilhas. É aí que o professor ajuda na construção do aluno autônomo, crítico e responsável que pretendemos formar.

  1. Colégio Interativa: Como você imagina que será uma escola daqui a 20 anos?

Fátima: Como imagino? Espero que muito diferente da Escola do século XIX, XX. Temos todas as condições para que isso aconteça. Que a formação inicial de professores possa ser uma ponte para essa transformação. Não me consigo ver sem o edifício (seja prédio, seja mangueira) já que são várias as instituições que se dissolveram. Espero que a instituição escola se transforme e torne mais forte. Não sou adepta da educação domiciliar, pois considero que esse é um modo de exclusão social. Mas acredito que a escola deverá abrir-se para deixar de ser a “ilha” que se tornou, que se construam equipamentos que proporcionem interação entre várias instituições para que o conhecimento flua.

  1. Colégio Interativa: Existe algum material que podemos adquirir sobre essa formação? Algum livro de sua autoria ou alguma outra referência bibliográfica? Existe algum site ou rede social em que podemos esclarecer dúvidas com você?

Fátima: Em educação ninguém tem autoria. Tudo está, tudo já foi dito, tudo já foi estudado. O problema é que muitas vezes não sabemos estudar e, com a pressa, queremos clonar práticas que deram certo em alguns lugares esquecendo que cada escola tem o seu contexto, tem o seu ethos.

Há livros, não escritos por mim, mas organizados, com o Pacheco, sobre a Escola da Ponte. Esses livros foram escritos por professores, pais, alunos e outros educadores e são fruto de formações que foram feitas online. Pacheco e eu só organizamos o material para que todos pudessem ter acesso e por isso estão à venda. São eles:

“A Avaliação da Aprendizagem na Escola da Ponte”, WaK Editora, Rio de Janeiro, 2012,

“A Escola da Ponte sob Múltiplos olhares – palavres de educdores, alunos e pais”, Penso (grupoa), Porto Alegre, 2013,

“Diálogos com a Escola da Ponte”, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 2014,

“Escola da Ponte uma escola pública em debate”, Cortez Editora, São Paulo, 2015.

A internet tem muita informação, mas, nem toda é fidedigna em relação à realidade, talvez pela não compreensão já que tem que ser analisada pelo viés da aprendizagem e não da “ensinagem”.

Não tenho site, nem blog. Tenho página do facebook (Fátima Pacheco), mas qualquer pessoa que queira algum contato pode fazê-lo por email: fatinhapacheco56@gmail.com.

Com uma ressalva, não darei respostas que as pessoas poderão encontrar por conta própria, quanto muito poderei trocar ideias e desse princípio não abdicarei.

  1. Colégio Interativa: Para encerrarmos, que recado você deixaria para os professores em geral e como você definiria sua filosofia docente?

Fátima: Gostaria que os docentes se sentissem pessoas, com coração, abertos a tudo o que é diferente, diverso. Não bitolassem as crianças/adolescentes por que somos todos únicos. Que aceitassem a profissão como algo de muito importante para si e para os outros. Que sentissem entusiasmo na procura, na leitura, na discussão, na criatividade, na inventividade para que não se sentam mortos antes de morrer. Retomo dizeres de Paulo Freire: Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.” e “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.” Por isso somos trabalhadores intelectuais. Bem, hajam!

Fátima Pacheco (10) - reduzido 2

 

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